A indústria cultural interfere no pensamento, na criatividade e nas formas de expressões artísticas. A busca pelo mercado, acaba determinando como as obras artísticas devem ser produzidas da forma ao conteúdo. Para não cair nesse círculo vicioso, músicos precisam não só de competência, mas também de atitude para não se prender a fórmulas.
Pode-se citar nesse contexto artistas e bandas como Raul Seixas, Ultraje a Rigor, Lobão, Pato Fu, Ira!, Inocentes, Velhas Virgens e muitos outros, além daqueles que não conseguem um equilíbrio entre o que a indústria quer e a inovação, e por isso acabam sendo engolidos por essa corrente massificadora.
Os músicos que tendem à inovação, e buscam ser criativos nas letras, trazendo novos arranjos e novas visões de mundo, batem de frente com a corrente mercadológica da indústria do entretenimento e das grandes vendagens, sendo necessário em alguns momentos buscar na cena alternativa das artes forças e opções para sua obra. Sobre isso, Fernanda Takai, 33 anos, vocalista da banda mineira Pato Fu, acredita que sua banda é diferente. “Acho que nunca nos acomodamos em determinados formatos. Quem nos conhece nos shows ou dos discos, sabe que a gente não se limita a qualquer rótulo”, afirma a líder.
Muitos buscam criar um vínculo longo com uma gravadora, o que em alguns momentos pode provocar interferências no processo de criação. Esses artistas são conhecidos de longe por causa das suas obras que se tornam repetitivas, tanto em conteúdo por se tratarem de temas batidos quanto de sonora por não trazer nada de novo, simplesmente os mesmos arranjos que dificultam a diferenciação entre um artista e outro, e é por isso que é necessário inovar.
Por outro lado, existem aqueles músicos que não aceitam interferências e rótulos, estão sempre recriando, indicando novas opções. “Ficamos dez anos na mesma gravadora, estivemos independentes no último ano e produzimos nosso oitavo disco do jeito que queríamos, com as próprias mãos”, comenta Fernanda.
No relacionamento entre músicos e os responsáveis pela divulgação (gravadora e produtores), antes de qualquer coisa, é essencial, assim como em outros trabalhos, esclarecer o que se quer e o que se pretende como conteúdo, os limites de interferência e a forma como isso será divulgado. Clemente Nascimento, 42 anos, fundador da banda paulista Inocentes, explica como deve ser esse processo. "É sempre bom manter um bom relacionamento com quem vai divulgar seu trabalho. E antes de fechar o contrato, acertar os pontos que se pretende seguir."
O Pato Fu foi criado em 1992, e ao longo de sua carreira lançou oito discos, inicialmente como um trio, hoje são cinco integrantes. Para escolher os títulos dos álbuns eles geralmente analisam os nomes das músicas que mais representam em imagens, “geralmente escolhemos os nomes por nos darem muitas idéias visuais, mesmo”, explica a vocalista.
Sobre o sucesso, Fernanda diz que é uma coisa muito relativa e não existe uma maneira certa de consegui-lo, depende muito do objetivo que se tem na vida. “Não somos uma banda de sucesso o tempo todo. A gente sempre propôs os passos de nossa carreira de acordo com o tamanho de nossas pernas. Nossas vidas continuam muito próximas do normal.”
Os Inocentes surgiram da banda Condutores de Cadáver, em 1981, até hoje lançaram 15 discos, sendo o último Labirinto, de 2005. Nascimento nos explica o que pensa sobre o sucesso e como deve ser buscado. "Depende do que você se propõe a fazer. Se você quer tocar para 50 mil pessoas e coloca 10 ou 15 mil, é um fracasso, porém se você quer tocar para três mil, e toda semana consegue esse objetivo, isso é sucesso."
Clemente, que também trabalha com produtor, e que recentemente fez parte da grande cena do movimento Ska Brasil, produzindo algumas bandas, diz que apóia iniciativas desse tipo, que acabam trazendo inovação para o grande público, porém, como a indústria se renova, o movimento acaba sumindo das rádios. "Apoiaria sim trabalhos de inovação. E quem curtiu a cena de Ska, que gosta do estilo a cena continua, mas assim como outras que explodem com a indústria, acabam sumindo do grande público."
Sobre outros artistas que seguem o mesmo caminho de não seguir fórmulas na indústria, Fernanda Takai diz que tem “mais familiaridade com a obra do Ira!. Acho o Lobão uma pessoa que realiza projetos, busca caminhos diferentes, não omitindo sua opinião. Além de ser um autor de muito talento”.
A banda acaba de lançar seu oitavo disco Toda Cura Para Todo Mal, 2005, produzido de forma independente. “Agora vamos distribuí-lo por uma gravadora maior outra vez”, completa Fernanda.