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PARIS VIAGEM EM 1994 Primeira parte



I N T R O D U Ç Ã O:





Viajar sempre foi uma necessidade vital para o ser humano. Nada melhor do que conhecer novos horizontes, transpor novas fronteiras, ir, finalmente, além da territorialidade física e mental de sua região. A freqüência, com que tais viagens deverão ocorrer, ficará na dependência das disponibilidades financeiras, ocupacionais e temporais de cada um. Além dos períodos ocasionais e pessoais do indivíduo, de acordo com sua ocupação e trabalho, há épocas tradicionalmente programadas, como férias escolares, para os que têm filhos menores, festividades religiosas, folclóricas, políticas e outros eventos, que aliam trabalho e lazer. E isso se dá porque não sendo o ser humano um elo perdido no mundo, podendo a qualquer instante dispor de seus dias, mas sim vivendo entrelaçado à problemática familiar e social, a necessidade das viagens deverá estar sempre atrelada à noção do tempo real de que o indivíduo se permite para poder usufruir todo esse encanto benéfico, que funciona como uma verdadeira revisão de força, ânimo e energia para o corpo e a mente. Viajar é, pois, fugir dos problemas, do cansaço, das obrigações, enfim é uma verdadeira reposição do que se perdeu em saúde num determinado período, tornando-se, sob esse prisma, uma obrigação periódica, necessária à sobrevivência. E isso se consegue, totalmente, quando se viaja sem nenhuma vinculação de trabalho, unicamente visando ao prazer, em toda sua liberdade ocasional. Nada mais, portanto, benéfico do que isso. Uma verdadeira higiene mental.
Como conseguir usufruir do lazer que se descortinará aos olhos do viajante? A noção de beleza é ampla. Ela tanto pode estar nas regiões de natureza pura com seus bosques, rios, lagos, vales primitivos e montanhas glaciais, como também estará nos monumentos, nos museus, nas igrejas, nas obras de arte, nas configurações históricas e no traçado urbanístico de uma cidade com sua vivência social e artística.
O dilema surge quando se viaja pela primeira vez, quando se quer ver o máximo de regiões, num tempo curto, para aproveitar a viagem aérea, ou quando se fica em dúvida sobre o que ver, mormente quando a distância é grande entre as escolhas. Os que vão rever, já fizeram sua escolha em razão de suas preferências culturais e por se julgarem conhecedores de toda essa engrenagem turística. Há também os que vão eliminando o que já visitaram, procurando novos pólos desconhecidos, impregnados pela publicidade turística, farta em atrativos, contrariando a teoria de Heráclito de Éfeso que diz que nunca passamos duas vezes pelo mesmo rio, pois, na segunda vez, assim como nós já somos diferentes, orgânica e mentalmente, as águas do rio também se modificaram. O que ele quer dizer é que, numa primeira vez, captamos, a grosso modo, os elementos dispersos de uma estrutura. Já, numa segunda vez, captamos esses elementos com maiores detalhes, aproximando os dispersos. À medida que vamos observando, os elementos constitutivos da estrutura aumentam, como numa pirâmide invertida. E, assim, nunca se esgota o que se vê quando se quer ver. É como uma fotografia que se vai ampliando sucessivamente, com a proliferação dos detalhes, que podem se transformar, inclusive, em interesses autônomos. A Catedral de Notre Dame, por exemplo, pode ser vista como igreja, como obra de arte, como arquitetura gótica, isso sem falar na particularidade dos enfoques que a compõem. Um mundo de observação surge a nossa frente. E mãos à obra.
Realizamos nossa primeira viagem em outubro de l994, no outono. Como todo principiante que quer ver o máximo em pouco tempo, antes da viagem, procuramos conhecer bem o local para onde íamos por nossa conta. O que fizemos? Compramos guias e mapas de orientação. Sabíamos onde ficavam os monumentos, os museus, as diversões, os restaurantes, os cafés, os hotéis mais bem localizados. Uma infinidade de informações coletamos.
Nosso primeiro centro de interesse foi a França, isto é, Paris . Não foi, contudo, uma escolha momentânea, em função dos apelos turísticos, não. Foi, sim, a concretização de um desejo de muitos anos. Um sonho a ser realizado. Muitos roteiros caberiam no sonho desde que houvesse Paris. E, assim foi escolhido o primeiro roteiro de viagem à Europa.


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P A R I S







l7.10.1994: Primeiro dia em Paris:




Chegamos a Paris no dia 16.10.1994, à tarde, no Aeroporto Charles de Gaulle, via Varig, procedente do Rio de Janeiro. Tomamos, juntamente com alguns passageiros brasileiros, em Roissy, ainda no aeroporto, um ônibus , que fazia rota de integração com o metrô , que nos levou até a primeira estação(RER - (B)-(B3) com destino à Gare du Nord. Essa pequena viagem foi bem pitoresca, pois nos mostrava, numa primeira mão, os arredores de Paris, por ser um trem aberto, que, só mais tarde, se transformaria em metrô, verdadeiramente
Na Gare du Nord saltamos para pegar o metrô (linha 4) em direção à Porte d!Orleans (Essa linha liga Porte d!Orleans à Porte de Clignancourt, cortando a cidade de ponta a ponta, num sentido vertical. Nossa direção era o 10ª. arrondissement, saltando na estação Chateau D´Eu, em busca do Hotel Aulivia (Un bel hôtel 3 étoiles très parisien entièrement restauré), na rue des Petites Écuries, 4. Da estação do metrô, atingimos a rue du Château d´Eau, e, em pouco tempo, chegávamos ao hotel. A tarde, por sinal, não era bonita, o tempo estava nublado, anunciando chuva, o que não era nada bom. Sentíamos a cidade cinzenta, imaginando que pudesse chover. Sempre que há falta de sol e prenúncio de chuva parece que o tempo definha e entra em depressão. A mente da gente também fica entre o sol e a chuva, isto é, numa situação indefinida e chegada ao desânimo, anseia-se por um outro dia com sol quente, cujos raios são capazes de embriagar de alegria e emoção.
A rua du Château d´Eu, bem como suas imediações, pareceu-nos bem interessante, pois além de hotéis e restaurantes, havia um comércio variado. Meu livro de viagens sobre Paris relata, referindo-se a esta rua, que há para ser visto ( e não vi) “le marché de la Porte Saint-Martin, hall d’abondance, dont le mur est tatoué à l’adresse de la clientèle d’une fort aimable invitation à visiter, rédigée en énormes caractères par le syndicat de gestion en personne. C’est plaisant et cordial, et cela montre bien, à défaut d’autres textes, d’autres proclamations, que tout ce qui, ailleurs, est luxe, divertissement, souci de toilette, demeure ici aplication, labeur, nécessité alimentaire.” Há ainda os arredores famosos como o boulevard Saint-Denis, a rue de Chabrol,, o boulevard de Strasbourg, boulevard Sebastopol e o Faubourg Poissonnière. Finaliza o livro:”...le dixième arrondissement, que occupe deux cent quatre vingt-six hectares et reste un des plus populeux de l’agglomérationl parisienne, participe à la vie intense de la capitale. “ Fala ainda sobre os teatros, Antoine, Eldorado, Scala, Gymnase, Mayol, Gémier, Dranem,d’Henry Bataille, Polin, mencionando Maurice Chevalier.
Nessa noite, de domingo brumoso, resolvemos ficar por perto, nada de saídas longas para conhecer melhor o local. A gente deixaria essa tarefa para o dia seguinte ou seguintes, pois ficaríamos ali dez dias, de 16.10.94 até 26.10.94. Jantamos num restaurante oriental, chinês. Como aquela área do hotel era um misto de comércio e residência não podia apresentar muita animação num domingo à noite. Os que trabalhavam no local, na certa, moravam em outro bairro e, por isso, ali não estariam e os que moravam no local e trabalhavam em outro, também não davam as caras, pois deviam estar descansando para enfrentar o trabalho do dia seguinte. Assim, ficamos nós, ainda sem conhecer nada, andando um pouco pela rua. Não tivemos coragem suficiente para enfrentar o metrô e ir procurar divertimento em área de maior animação. Não que estivéssemos muito cansados, por causa da viagem aérea, mas sim porque não sabíamos para onde ir. A viagem de avião não nos cansou. Uma viagem de avião não cansa muito, ainda que exista a preocupação, mormente em quem viaja pouco, ou faz sua primeira viagem aérea longa.
Nosso contato com a televisão não foi dos melhores. Tentei assistir a alguns programas e aguardar pelo filme que estava sendo anunciado, mas não esperei pela programação. Decididamente, a televisão não era minha preocupação na França. Por mais que se procurasse encarar com naturalidade, a gente ainda não conseguira se desvencilhar das peripécias da viagem. E pensar que, no dia anterior, a gente estava do outro lado do mundo, no convívio familiar, vivenciando emoções bem diferentes.

17 de outubro de l994: Nosso primeiro dia, após a chegada, a Paris:


Levantamos cedo e saímos logo após o café, munidos de um mapa ( existem muitos, ofertados no hotel , propaganda das Galerias La-Fayette e Printemps ) , com as estações do metrô ( e é a melhor fonte de informação ), atingimos o boulevard de Strasbourg. Resolvemos caminhar, pois esta é a melhor maneira de se conhecer um lugar, ver as coisas em minúcias. É menos rápido, mas é melhor para se ver o que se deseja, de imediato. Na linha reta, não tinha o que errar, atingimos o boulevard Sebastopol. As casas que margeavam os boulevards tinham todas a mesma feição, com os tetos de telhas escuras, lembrando ardósia, pouco inclinados e com janelinhas num pequenino sótão. As pessoas, nas ruas, andavam calmamente. Notei o carinho com que as pessoas tratam e carregam os animais, principalmente cães. Muitos acompanham seus donos aos restaurantes, ao trabalho; outros são levados a passeios, quando os donos retornam de suas ocupações. Essa ternura para com os animais me cativou. Pensei logo nos animais que haviam ficado no Brasil e que não me veriam durante trinta dias. Depois de longa caminhada, finalmente chegamos à Ile de la Cité. ‘Só passamos, não contornamos a Ilha porque queríamos atingir, ainda cedo, o outro lado da cidade.
Não poderíamos deixar de ver a célebre Catedral de Notre Dame, que ficou fechada de l795 a 1802, sendo restaurada em 1804. Havia muita gente, grupos turísticos de todas as procedências. Um grande contingente de japoneses (não só ali, mas por toda Paris). A catedral não estava iluminada totalmente. Estava muito sombria. Os arquitetos aumentaram as janelas que passaram a ter dez metros de altura, buscando a claridade necessária para iluminar o ambiente, que se tornou majestoso. Atualmente, é composta por uma nave muito larga, acompanhada de 37 capelas laterais, separadas por uma galeria do coro e do abside, que se avista da margem esquerda do rio e que, por ser tão imponente, merece ser considerado uma verdadeira obra prima da arte gótica com sua elegância aliada ao equilíbrio. Além das estátuas, são admirados os monumentos funerários e uma coleção de quadros da escola francesa. A “Pietá” em seu altar é um momento alto da visita, merecendo ser contemplada com tempo. As fachadas são em pedra. Na entrada principal estão dispostos acima, numa verdadeira galeria, os 28 reis de Judah. No alto, sustentam-se torres que atingem uma altura de 69 metros, com quatro faces cada uma. Chamam a atenção os volumosos vitrais, as rosáceas góticas amenizando a sisudez da construção. A rosácea da janela norte mostra a Virgem e figuras do velho testamento, a da janela sul mostra Cristo no centro, cercado de virgens, santos e os l2 apóstolos, a da janela oeste mostra a Virgem num rico medalhão com a combinação das cores vermelha e azul, e a da janela sul mostra, no centro, uma pintura de Cristo. Sobre os três portais de pedra, projetam-se estátuas gigantes. O portal central se intitula “do julgamento”, o da esquerda em “da Virgem” e o da direita em “de Santa Anne”. O exterior de Notre-Dame conta com 1.200 estátuas representativas da Idade Média. Debruçando-se para fora, em posição de guarda, surgem as monstruosas “gargouilles” em formas de animais estranhos e bizarros, figuras demoníacas, mas que ajudam e servem para o escoamento da água, principalmente das chuvas. Aparecem em outras catedrais da época medieval. Há quem diga que essas figuras simbolizam o resquício do paganismo vencido, consubstanciando, assim, o encontro de duas culturas, a religiosa e a pagã. As “gargouilles”, também conhecidas como “Chimères “, no sentido de monstro mitológico, foram fixadas pelo arquiteto Viollet-le-Duc a convite de Napoleão, em 1804. É o local ideal para uma boa vista da cidade. O Pináculo também foi restaurado por Viollet-le-Duc. A parte este, traduzindo uma ânsia de atingir o universo, qual vôo de borboleta com asas grandes abertas e superpostas às pequenas, abrindo seu manto para o mundo.
Referindo-se às igrejas góticas, Chateaubriand escreve em sua obra, “O Gênio do Cristianismo”, ( pg. l7, coleção Clássicos Jackson, tradução de Camilo Castelo Branco ) que “Não podia entrar-se numa igreja gótica sem experimentar uma espécie de calafrio, e um vago sentimento da divindade. De súbito, nos voava o espírito ao tempo em que os cenobitas , após a vida contemplativa nas matas de seus mosteiros, vinham prostar-se ao altar, e entoar louvores ao Senhor, pela calada da noite. A velha França como que ressurgia, com seus usos singulares, o povo tão diferente do que é hoje: vinha o recordar as revoluções, lavores e artes desse povo. Quanto mais remotos de nós, mais mágicos nos pareciam esses tempos, mais nos enchiam dessas idéias que terminam sempre em reflexões acerca do nada do homem e celeridade da vida.
A ordem gótica, com suas barbarescas proporções, tem, todavia uma peculiar beleza.
As florestas foram os primeiros templos da divindade, e lá hauriram os homens a primeira idéia arquitetônica. Conforme os climas, devia de variar essa arte. Os gregos contornaram a elegante coluna coríntia com o seu capitel de folhagem, pelo molde da palmeira. Os pilares enormes de vetusto estilo egípcio representam o sicômoro, a figueira oriental, a bananeira, e a maior parte das árvores gigantescas de África e Ásia.
As florestas gaulesas também passaram aos templos de nossos pais, e as nossas carvalheiras mantiveram assim a sagrada origem delas. Essas abóbodas cinzeladas em folhagem, esses umbrais que escoram as paredes e rematam rapidamente como troncos partidos, a frescura dos tetos, as trevas do santuário, as naves obscuras, os passadiços secretos, as portadas profundas, tudo simula os labirintos das selvas na igreja gótica, tudo nos insinua o religioso terror, os mistérios e a divindade desses bosques. As duas alterosas torres, eretas à entrada do edifício, sobrelevam os olmos e o teixo do cemitério, e recortam-se pitorescas no azul do céu. Umas vezes o sol ilumina suas gêmeas frontes; outras vezes parecem coroadas dum capitel de nuvens, ou engrossadas por um cinto de vapores atmosféricos. Até as aves parecem enganarem-se, e tomá-las pelas árvores das suas florestas: as gralhas esvoaçam em redor das suas cúpulas e empoleiram-se nas galerias. Mas de súbito confusos rumores surdem do cimo dessas torres, e afugentam os pássaros apavorados. O arquiteto cristão, não contente com edificar florestas, quis, digamo-lo assim, imitar-lhes os murmúrios: e, por meio do órgão, do bronze suspenso, identificou com os templos góticos o reboar dos ventos e trovões, que rugem nos recôncavos das florestas. Os séculos, evocados por esses sons religiosos, desferem suas antigas vozes do seio das pedras, e suspiram na vasta basílica: o santuário muge como o antro da sibila antiga; e, enquanto o bronze se balanceia estrondoso sobre sua cabeça, os subterrâneos abobadados da morte se calam profundamente sob seus pés.”
Citando Júlio César, o conquistador romano na Gália, Ward Rutherford (Ed. Mercuryo, pg.8l ) escreve: “ Mas naturalmente, a árvore também representa um centro e nos lembramos de que César diz que o território dos CARNUTES, onde os druídas realizavam sua convenção anual , era visto como o epicentro da Gália. Era ali que, enquanto os deuses se reuniam debaixo da Árvore do Mundo, os druídas , eles próprios de várias maneiras assemelhados aos deuses, reuniam-se para passar julgamento e para tomar suas mais solenes decisões. Essa assembléia, que sem dúvida era realizada debaixo das árvores (a maior parte dessa região era coberta de florestas), era apenas uma versão mais augusta de outras assembléias realizadas debaixo de árvores sagradas - as Bile - mencionadas nos textos irlandeses. “
Carnutes pertencia à região da Gália, conhecida como Lyonnaise IVe. , tendo como cidade principal Autricum, hoje , CHARTRES, que veio a ser o maior centro religioso dos druídas, sacerdotes, que dominavam a vida religiosa, judiciária e política dos membros de uma comunidade céltica. Em Chartres, capital do departamento de Eure-et-Loire, distando 80 km. de Paris, foi edificada, no século XVII , uma das mais importantes catedrais góticas da França. Fatos lamentáveis turvaram o florescimento de Chartes, que durante a segunda guerra mundial foi parcialmente destruída pelos bombardeios, na época da ocupação alemã e, no passado, por volta de 858, sofrera saques, sendo incendiada pelos Normandos. Tais fatos, entretanto, não devem tê-la ofuscado totalmente, pois, apesar deles, a região vem-se constituindo num dos pólos importantes do turismo francês.
Voltando a falar da natureza e de seu mágico domínio sobre o homem, outros autores afirmam, por sua vez , que a natureza poderia contribuir com a imitação, mas não poderia conceber a arte prodigiosa que brotou da mente dos edificadores das catedrais. O homem, em sua criatividade, reuniu todos os valores naturais esparsos existentes e os condensou. As rosáceas coloridas, impregnadas de conteúdo místico, pictórico e simbólico, constituem um bom exemplo.
Ao se admirar uma igreja gótica, mais particularmente sob a visão religiosa, pode-se imaginar como é que foi possível, com tantas transformações por que passou em sua trajetória, que ela chegasse, finalmente, a essa estrutura ideal.. Ainda mais, sabendo-se, pela exposição de importantes autores do passado, que a primitiva religião era praticada ao ar livre, sob a proteção acolhedora das folhagens das grandes árvores, tendo a terra e o céu como piso e cobertura. Em verdade, o homem evolutivo, preso à fé cada vez mais entranhada em seu interior, na construção de seus templos, imitava a natureza, sim, copiando sua ambiência, que tinha como cenário as florestas virgens, suas fontes e cachoeiras
A natureza sempre exerceu fascínio sobre o homem, e não é só sob o primado da religião, não. Na época do Arcadismo, do séc. XVII, vê-se, pelas pinturas e fotografias de então, o gosto e o requinte da vida ao ar livre, em bosques e jardins , nas comemorações e nas festividades. Os pintores ligados à corte real emolduraram muitos pic-nics da nobreza. O próprio Louvre exibe muitos desses quadros.
Se o Medievalismo religioso trouxe a natureza para o seu templo, copiando-a, o Barroco interiorizou essa cópia, tornando-a mais densa, lúgubre, com sombra, pouca luz e labiríntica, para, finalmente, o Arcadismo levar a vida ao ar livre, no domínio elegante da natureza.
Após toda essa verificação, a primeira parte de nosso dia fora preenchida, Saímos e ainda olhamos por algum tempo a catedral e seu adro, ao atravessar o Sena. Ficava, assim, para trás a catedral que fora cenário da obra de Victor Hugo, o romance de Quasímodo e Esmeralda em “O Corcunda de Notre Dame”

Finalmente, deixando a Rive Droite alcançamos a Rive Gauche. Continuando, na mesma reta, o boulevard mudou para Saint Michel Nosso destino, a seguir, foi Saint Germain de Prés. Logo avistamos os dois cafés famosos .: Deux Magots e De Flore. No Deux Magots, Simone e Sartre escreviam seus romances, ocupando sempre a mesma mesa. Não entramos, mas tiramos fotos. Contornamos a igreja, que estava fechada, buscando localizar a Place de Furstenberg (Meu filho Leonardo trouxera para nós um pôster dessa praça e por termos gostado muito, resolvemos conhecê-la pessoalmente, Acontece que, hoje em dia, ela está diferente do pôster, houve modificação. Contudo, ainda está lá o atelier do pintor Delacroix.). Na rua Guillaume Apolinaire, sentamos no café Bonaparte (Simone de Beauvoir e Sartre moravam naquele edifício, alguém disse).Tomamos um café caríssimo e continuamos a nossa caminhada, chegando à Pont Neuf para conhecer o Vert Galant. É um ponto de barcos que percorrem o Sena com turistas. Parados, na Pont Neuf, aguardando que o sinal fechasse, tivemos uma visão muito interessante, que merece ser relatada, do confronto das duas margens, como num encontro amistoso de dois irmãos, que, sem serem rivais, pois ambos são belos, respeitam-se muito por tudo que têm para oferecer aos visitantes.
Novamente na rive Droite, voltando para o hotel Aulivia, passamos pela rue de Rivoli, que é tangente com o Museu du Louvre. É uma rua comercial e turística, principalmente na parte que corresponde ao Museu. Sob as pilastras, surge uma galeria, onde se encontram muitas lojas de souvenirs e ateliers de quadros e gravuras, com muitos cartões postais. É nessa rua que também partem muitas excursões, organizadas por agências locais, como excursão para Versalhes, Bruges, Fontainebleau e outras regiões da França. Seguindo a trajetória, entramos na rue Saint Denis e fomos caminhando pela Port Saint Martin, depois boulevard Saint Denis, Faubourg Saint Denis, Rue Château d’Eau, culminando na rue des Petites Écuries (cuja tradução é cavalariça, estrebaria. Será que o local, antigamente, se prestava a esse tipo de atividade ? Novamente nos vem à mente aquela idéia sobre as carroças que levavam os prisioneiros para as execuções na época do Terror. ).Terminando, à noite, jantamos no Rest. Libanais .





DIA l8.10.1994: Segundo dia em PARIS.




Fizemos um trajeto diferente, no segundo dia. Em lugar de subir a rue de Château d’Eu, resolvemos descer pela rue des Petites Écuries, desembocando na rue Richer, onde presenciamos uma infinidade de pequenas lojas de comércio variado em couros, peles, sapatos e bijuterias. Na rue Geoffroy Marie, por sinal, muito ajeitada, florida, até pode-se chama-la de graciosa., há, além de muitos hotéis, restaurantes judaicos, com comidas tipicamente orientais. Notei que todos usavam trajes típicos. Parecia que não estava em Paris, ou melhor, parecia que estava numa Paris bem diferente em face da visão urbanística das casas e a gastronomia ser oriental. Na rue du Faubourg Montmartre não encontramos mais aquele tipo decorativo, e sim uma rua tradicional, com seus prédios uniformes. Com pressa, num desejo incontrolável de guardar tudo que se via e tentar ver mais e mais, lá fomos nós pelo boulevard Montmartre e Paris cada vez mais suntuosa se abria aos nossos olhos deslumbrados. Cada rua, cada recanto nos proporciona surpresas numa arquitetura que se mantinha perfeita nas retas, nos cruzamentos como se tudo aquilo tivesse sido planejado antes mesmo antes dela surgir na face da terra. Do boulevard Montmartre, passamos para o dos Italiens, chegando à Opera, que fica na Place de l’Opera, atualmente fechada para restauração. Ela tem toda uma vida para contar não só no tocante às manifestações musicais da cidade, como é um espelho de uma época de grandiosidade e importância, que se nota ainda na área do Café de la Paix, ao lado dos boulevards de la Madeleine e des Capucines que, durante o dia, abriga uma mistura de intenso comércio, bancos e órgãos de turismo,sem falar que é ponto de convergência dos ônibus na condução de passageiros do Aeroporto. Em sua fachada, nota-se uma mistura de estilos, indo do clássico ao barroco. Esta construção de l875 tem como símbolo a opulência do Segundo Império. No salão de entrada, encontra-se o museu, onde muitos trabalhos de artistas são exibidos temporariamente. No seu interior, no auditório, a ornamentação com querubins cria contraste com as pinturas no teto de Marc Chagal, de l964. A cúpula, acima do auditório, Com a inauguração da nova Ópera, na Bastille, a tradicional casa musical, a Opera de Paris Garnier, não perdeu seu lugar como destaque musical, patrocinando importantes eventos.
Tiramos retratos. Uma senhora gorda bateu nossa fotografia. Nos retratos que batemos, procuramos focalizar o prédio da velha Opera e suas cercanias, com seus cafés ruidosos. Continuando nosso passeio, fomos até à rua Scribe, procuramos o escritório da América Express, onde foram trocados nossos cheques de viagens. Avistamos e admiramos o Grande Hotel. Seguimos o boulevard des Capucines, depois o de la Madeleine onde desponta a igreja de S. Marie Madeleine. Uma pequena pausa para retratos e nos vimos na rue Royale, bem longa. Andar a pé, já disse, é muito bom. Se não o tivéssemos feito, não teríamos visto as coisas como vimos. E não era um andar lento, não, e sim um andar apressado, pois o tempo era pouco para o que se tinha de ver.
À nossa frente, então, surgia o Hôtel de Crillon, um dos mais caros e importante de Paris. Estava todo cercado, o que nos levou a concluir que havia, na certa, personalidades da política ali hospedados ou que estavam aguardando a chegada de tais personalidades. Com todo esse cerco, não se podia passar por perto para vê-lo melhor, era uma questão de segurança. Sem outra alternativa, entramos no Jardin des Champs Elysées, passando pelo Palais de l’Elysée.
.Percorrendo, então, a Avenue des Champs Elysées, tinha-se a sensação de estar percorrendo uma via eterna de sonho e fantasia, por entre árvores, com as folhas secas do outono, estátuas, pombos e o colorido das lojas e casas que margeavam o jardim. Caminhando pela avenida, já, com calma, tentando usufruir de tudo o que ela nos poderia proporcionar, de um lado a beleza do parque, emoldurado por uma fileira de castanheiras, ampla e muito bem cuidada e, do outro lado, por uma avenida comercial muito concorrida, de febril agitação com seus cafés, restaurantes, escritórios, cinemas, lojas, exposições, consulados, sem falar no mosaico colorido que as roupas dos visitantes, num contraste entre paisagem e os prédios, evidenciava. Tudo parecia estar num topo de grandiosidade e festividade. Novos retratos, poses para não perder a beleza dos gramados e das flores, procurando realçar os cafés nas calçadas, que ostentavam vasos e jardineiras coloridas. É preciso notar que a Avenida dos Champs-Elysées, que passara por uma reforma total, estava sendo entregue ao público. Nós a víamos, então, novinha em folha. Estávamos, portanto, possuídos de muita emoção, uma emoção parecida, talvez, com a que Marcel Proust experimentava ao retratar todo aquele encanto em “A busca do Tempo Perdido “.
A imprensa local, farta em documentário, relatava, assim, os acontecimentos concernentes à inauguração da Avenida em 26 de setembro de 1994: “ A ’occasion de son inauguration, l’avenue a fait l’objet d’une mise en lumière exceptionnelle, qui s’est renouvelée chaque soir pendant trois semaines. Cet éclairage, conçu par Yann Ketsalé, consistait en une succession de vagues lumineuses vertes sur les immenses couloirs d’arbres implantés sur chacun des côtés de l’avenue. Destiné a favoriser la redécouverte des Champs-Elysées et leur réappropriation , il associait la lumière au bruit des pas sur le sol. Celui-ci était capté par des micros placés sur les trottoirs et son intensité déterminait la puissance et la vitesse des vagues et ondulations lumineuses produites à partir de sources installées sur les candélabres: plus la foule était nombreuse, plus le déferlement de lumière était fort e rapide. Les déambulations des promeneurs avaient ainsi une résonance lumineuse.
Magique, cette mise en lumière a fait surgir dans la nuit une vision tout à fait nouvelle des Champs-Elysées rendus aux promeneurs.
L’avenue connaîtra bientôt d’autres iluminations: celles, traditionnelles, de fin d’année qui auront, dorénavant, un éclat particulier grâce à la double rangée d’arbres.”
Sobre a “ligne de mobilier urbain “, destaca-se: “En effet, dans le contexte de l’avenue, òu la surface des sols, la proportion des espaces, les alignements d’arbres sont les facteurs essentiels de la beauté du site, la degradation qui s’était produite depuis une quarantaine d’années provenait moins de la médiocrité des immeubles récemment construits que de la multiplication désordonnée d’interventions ponctuelles et de l’ envahissement de l’espace par des objets incohérents. .....” “Les élements de mobilier nouveaux, crées spécifiquement pour les Champs-Elysées, sont dus à Jean-Michel Wilmotte, concepteur du candélabre de chausée, du feu de signalisation et du banc, et à Bernard Huet, concepteur du projet d’ensemble de lávenue et de trois mobiliers: le potelet de protection des trottoirs, la grille d’arbre dérivée de la grille traditionnelle, l’élément d’acroche pour motos.........” “Les terrasses de café constituent l’un des charmes caractéristiques de l’avenue et l’un des agréments de sa fréquentation.”
A modificação feita procurou colocar as coisas essenciais nos lugares próprios. Nada de exageros, mas, sim, limite, unidade e ordem. Desse modo “le mobilier urbain implanté sur les trottoirs de l’avenue est limité aux éléments suivants: - les candélabres de chaussée (70 ), - les candélabres de trottoirs appelés “Hittorff”( 248 ), - les colonnes Morris auxquelles sont integrées deux cabines télephoniques (18 ), - les kiosqques à journaux ( 8 ), - les abribus ( 6 ), - les bornes de propreté ( environ 120 ), - les bancs (55 ), - les feux tricolores (41 ), - les potelets de protection des trottoirs fixes et amovibles ( 450 ), - les arceaux pour stationnement deux-roues (260 ), - les grilles d’arbres. “
Merecem atenção especial as colunas Morris, espalhadas por toda cidade, principalmente nos boulevards. São os “édicules” em forma de coluna, sobre as quais são afixados os espetáculos da cidade, propaganda de restaurantes, endereços de lojas, com ou sem cabines telefônicas. Criadas por Morris, impressor, ficaram com seu nome porque foi ele o primeiro a usa-las nesse sentido.
Antes de chegarmos ao Arc de Triomphe, no 8o. arrondissemeent, na Place Charles de Gaulle-Étoile, observamos a rue George V, advinhando estar por ali, bem perto, o famoso hotel, em que se hospedou Alain Delon, em seu filme “Um homem sem escrúpulos”. Finalmente, o que se esperava aconteceu. Desde longe, na caminhada, a gente divisava o Arco, mas foi só chegando perto dele que se pode, verdadeiramente, contemplar o símbolo napoleônico; ele é considerado o maior arco triunfal do mundo. De sua posição central, convergem doze avenidas. A glória, o poder, o orgulho e a vitória fazem parte do monumento, da pedra e são ostentados em baixo-relevo, enaltecendo os feitos napoleônicos bem como a participação dos generais que, igualmente, combateram ao seu lado, tais como na batalha de Aboukir (l799) e batalha de Austerlitz (l8O5); fundamentalmente é o repouso eterno dos soldados desconhecidos franceses, combatentes na Primeira e na Segunda Grande Guerra; celebração do Tratado de Viena (1810); partida dos voluntários em l792; funeral do General Marceau. Acima do portão principal do Arco, na parte este, estão esculpidos trinta escudos representando as vitórias de Napoleão na Europa e África. Uma tira de frisos, abaixo dos escudos, reflete , na direção este, a partida da armada francesa para novas campanhas e, na direção oeste, seu retorno. Pela plataforma, tem-se uma bela vista de Paris, do Champs-Elyssées e de La Defense.
O majestoso Arco do Triunfo fica no centro , como se fosse um disco , por onde são irradiadas as doze avenidas, cuja principal é a des Champs Elysées. As outras são: Marceau, D’Iena, Kleber, Victor Hugo, Foch, de la Grande Armee, Carnot, Mac-Mahon, Wagram, Hoche e Friedland. Visto do alto tem a forma de uma rosácea medieval. Todas obedecem a um plano arquitetônico idêntico e são arborizadas. O verde é, pois, uma constante. Homenageiam Jean Baptiste Kléber, Marshal Ferdinand Foch, entre outros.
Contornamos a praça, visitando, em seguida, o Office du Tourisme . Compramos mapas, pegamos vários prospectos que estavam ali para ser distribuídos e continuamos a caminhada, já, a essa altura, cansados de tanto andar. Nas imediações da rua George V, tomamos o metrô. Saltamos em Chatelet e fizemos a já costumeira baldeação para Château d’Eu , retornando, assim, ao Aulivia. Fizemos uma reserva no Restaurante Flô para a noite seguinte. E a noite nos acolheu após os cumprimentos do concierge






Dia 19 de outubro de l994 : 3o dia de Paris.




O dono do atelier fotográfico, que ficava na esquina da rue des Petites Écuries, um chinês, ao revelar nosso primeiro filme, muito gentil, resolveu nos dar uma indicação para um passeio, no que, certamente, atingiu seu objetivo: a visão da Torre Eifel, à distância e não indo diretamente até ela, o que nos faria observar uma gigantesca estrutura de ferro.
Retornamos o caminho anterior pela rue des Petites Écuries, Château d’Eu e boulevard Strasbourg e fomos até a altura do metrô S.Denis, onde compramos passagem para Trocadero. De lá, em Chaillot, da esplanada de seu palácio, em estilo neoclássico, tivemos a vista , com suntuosidade, da Torre Eifel. Ela se situava ao final de um jardim imenso e todo recortado por gramas e repuxos de águas que subiam e desciam, como se fossem apresentadoras do espetáculo que surgia a nossa frente. Eram as exuberantes fontes do “Palais de Chaillot”.
Não deu para subir na Torre. Havia uma fila imensa. Todo mundo queria ver Paris através da Torre. É claro que nós também. O que a gente não queria, pois seria uma perda de tempo, era entrar naquela fila gigantesca, ou , então, ficar numa fila menor, e subir a pé, pela escada. Nada disso fizemos. E não há arrependimento. Ainda podemos fazê-lo, embora isso seja impossível sem fila, pois, é praxe, todo visitante acha que deve ver Paris pela Torre. E, ainda, houve outro agravante: começou a chuviscar e a bela Paris ficou brumosa.
Estando por ali, resolvemos ampliar os conhecimentos, já que tínhamos a nossa frente Champ-de-Mars e a Escola Militar, onde Napoleão estudou, graduando-se como “lieutenant”. Entre a Torre e a Escola há uma grande área de jardins projetados em 1170 para os desfiles militares.
A fome não nos levou a restaurante algum, porque também, já que havíamos feito reserva noturna para o Flô e porque fôsse tarde, não dando, portanto, para almoçar, bastava uma refeição leve. Fomos a um modesto café, bem em frente à estação do metrô Bit-Haken, nos fundos da Torre Eifel. Comemos um sanduíche típico parisiense . Pegamos o metrô, saltando em Montparnasse para uma rápida visita às Galerias La-Fayette. Nada se comprou porque tudo era muito caro. .Foi apenas uma olhadela.
Já dava para sentir que, na verdade, o metrô era o mais fácil, rápido e eficiente meio de transporte da cidade. Nas estações, encontram-se expostos os mapas com as localizações das paradas, bem como suas “directions” ou “correspondances”. Como o metrô cobre toda cidade, pode-se facilmente estabelecer qualquer conexão, indo de um extremo a outro, numa variação infindável. Para se atingir grande parte da cidade, basta apenas uma baldeação, as correspondances. As setas referenciais são muito precisas e não há o que errar . Tudo também é muito bem sinalizado. Para deixar as estações, basta seguir a seta “sortie”. Cada linha compreende um número que vai do início ao fim, cortando a cidade.
Nesse mosaico de linhas, escadarias, plataformas, parte alta e parte subterrânea, está contida a vida diária de Paris, no transporte para o trabalho, para o lazer e para o conhecimento das localidades de um extremo a outro. Pode-se dizer que é o apoio da luta pela sobrevivência dos parisienses. E tudo num ambiente limpo, com rapidez e objetividade. Nenhuma perda de tempo com o trânsito. É claro que o metrô não exclui a parte rodoviária. Os ônibus existem e são numerosos, também limpos e eficientes, dando ao passageiro, inclusive, as vantagens de uma paisagem, de ver para onde se vai e por onde se passa. Só que o metrô, sem empecilhos à sua frente, consegue, em poucos minutos, atravessar a cidade, cortá-la sem atropelos e congestionamentos. O que se perde da paisagem, ganha-se em tempo. E, com mais tempo, mais lugares poderão ser conhecidos e visitados. Acho mesmo que ninguém faz restrição ao metrô. Tanto assim que uma infinidade de pessoas, com calma ou com pressa, desce ou sobe as escadarias a todo instante. Umas estações, como as que servem ao Louvre, estão decoradas com peças e estátuas artísticas, outras com publicidade de lojas, como C & A, Galerias La-Fayette.
De volta ao hotel, pela rue de Château d’Eu, ficamos a espera do horário previsto para o jantar, que foi servido após as 20 horas. O local ficava numa espécie de cour, um pátio largo, cercado de pequenos prédios, com mais dois restaurantes. A descrição que tínhamos do local era a seguinte: “A Brasserie Flo é uma lembrança do passado. Atravessando corredores chega-se a este outro mundo, característico de Paris da virada do século: mogno antigo, banquetas de couro, cadeiras marchetadas de latão.” (Frommers. Guia completo de viagem. Paris.).
O que comemos na Brasserie Flô ? Na entrada do restaurante, havia duas bancadas, do lado de fora, com ostras, gelo. À medida que as ostras eram solicitadas, no restaurante, o garçom vinha e as levava com gelo para as mesas. Não nos aventuramos nas ostras..As mesas eram, realmente, reservadas. Se a gente não tivesse reservado, não encontraria lugar. Quando chegamos, às 20 horas, o restaurante estava quase vazio. Eu me encantei pelo ambiente. Lembrava-me os quadros de Lautrec e outros pintores da época . Aos poucos, porém, o ambiente foi ficando animado com vozes de todos os lados. Um verdadeiro calor humano atravessava as mesas, justamente com as ostras, que apareciam os pratos mais pedidos pelos presentes . Foi quando percebemos que o restaurante estava lotado, que não havia uma mesa vaga .Pedimos Hering, Sopa de Cebola gratinada, Formidable Choucrute Alsacienne, Bavette, vinho Merlot do pays D’Oc, figo e sambayon. Gastamos 402 francos. Mas valeu a pena , pelo ambiente, pela comida, até pelo local que era bem pitoresco, pois escondia um restaurante de muita classe. Na saída, um último olhar e tudo pareceu, pelas cores, pelo alarido e pela efervescência pairante, uma peça surrealista.
A gastronomia francesa goza de renome mundial, pois é uma culinária representativa da cultura francesa, sabendo-se ainda que a junção dos profissionais competentes com a riqueza de seus produtos, escolhidos com rigor pelos famosos maîtres cuisiniers de France, propiciam, aos mais exigentes paladares, plena satisfação. Isso sem falar no savoir-faire, no talento, na criatividade, na imaginação, na arte na confecção e arranjo dos pratos. Falou-se em comida francesa, falou-se em requinte, finura, nobreza. Um toque aqui, um outro pormenor adiante e surge uma combinação harmoniosa visando à satisfação de todos os gostos.
Existem nomes famosos como Jean- Claude Boucheret, Chef de Cuisine et de Pâtisserie Chargé d’Enseignement de “Le Cordon Bleu”, uma instituição culinária criada em l895, que é reconhecida mundialmente como representante da cozinha clássica francesa; Michel Comby do “Le Train Bleu”, da Gare de Lyon; Christann Constant, do Hôtel de Crillon, “Les Ambassadeurs” e Manuel Martinez , chef de “La Tour d’Argent” só para citar alguns.
De volta ao hotel, tratamos de dormir para agüentar o dia seguinte, quando novas idéias nos levariam, na certa, a locais nunca dantes conhecidos.





Dia 20 de outubro de l994 - Quarto dia em Paris:




Resolvemos, pela manhã, logo após o café no Aulivia, pegar o metrô e ir direto ao Quartier Latin. Saltamos na estação Saint Michel e, em pouco tempo, estávamos em pleno Boul’ Mich’. Conhecemos a Place St.Michel, o boulevarr St. Michel e as ruas que nascem dele, como La Huchette e seus frenéticos restaurantes, em que avultam, com pratos e menus em exibição, à porta, os de origem grega, libanesa, chinesa, tailandesa, coreana, japonesa e marroquina. Cortando-a, fica a rue du Chat-qui-Pêche, rua curta e estreita, com uma única janela e sem porta alguma.Não existe nada parecido em lugar nenhum. A rue de la Harpe é uma rua bem movimentada, também com restaurantes de todas as nacionalidades. A rue Xavier Privas, também estreita, se bifurca com as outras, com seus restaurantes chamativos. Num cruzamento, após a rue St.Séverin, chega-se a Igreja de St.Séverin, em estilo gótico, que data do século XIII. Não a visitamos, estava fechada. Seu nome tem relação com St.Séverin, que viveu no século VI e era um ermitão. Em sua origem, o edifício gótico foi uma doação de Henrique I à cidade. Sua construção data de 1210. Mais tarde, sua torre e as capelas foram edificadas. Do alto, são vistos as aves, os repteis e as gárgulas, também da arquitetura de Notre Dame.
Chegamos ao Jardin du Luxembourg, local privilegiado, cercado por árvores, vasos e pedestais. Sobressai Sta Geneviéve com suas tranças. O Palácio tem vista para o jardim. Foi construído por Salomon de Brosse, de origem florentina, em l6l2. Seus moradores iniciais não viveram histórias felizes. A primeira moradora, Maria de Medicis, foi exilada pelo filho. Sua área compreende l’Odeon até L’Observatoire. É considerado um lugar encantado e também paradisíaco de St.Germain-des-Prés. Só que ele tem uma dimensão ampla, abrindo-se e espalhando verde por toda parte, a perder de vista, ao contrário da pequena Place de Vosges, que se fecha acolhedoramente, procurando trazer tudo para o seu interior, como uma concha. Nem se acredita que tão belo palácio, também, serviu de prisão durante a época do Terror. Em suas dependências, hoje, funciona o Senado.
Além do Jardin du Luxembourg e do Palais, o bairro conta com a Igreja de St. Sulpice, na praça do mesmo nome, com um monumento a Delacroix, a Fonte de Médicis, com a Ecole Nationale Supérieure des Mines, a Fonte de l’Observatoire, elegante arquitetura e boutiques da rue de Tournon.
Retornamos ao boulevard Saint Michel e resolvemos conhecer a Sorbonne, que é, sem dúvida alguma, uma das mais importante universidade do mundo, Em sua praça, há muitos cafés com cadeiras nas calçadas, onde os estudantes conversam, comem e descansam.Há um aglomerado juvenil e bastante alegre, mas sem tumulto . É, pois , o colorido juvenil que torna o ambiente interessante, onde a gente sente que a vida brota em sua espontaneidade, sem artifícios e requintes. Ali, o saber ocupa o seu lugar. Começou como centro de estudos de Teologia com dezesseis alunos e hoje abriga estudantes de todos os pontos do mundo. No passado, teve como professor Thomás de Aquino, com sua célebre máxima”: “nada me é desconhecido” .
Esticando as pernas, fomos dar em Saint Germain de Prés e, de repente, estávamos na rue de l’Ancienne Comédie e nos deparamos com Le Procope, no número 13, o mais antigo café de Paris, iniciado em l686, quando foi fundado por Francesco Procopio dei Coltelli, de origem siciliana. De fora mesmo, deu para ver um ambiente luxuoso, decorado com espelhos emoldurados de amarelo-ouro. As mesas são com tampo de mármore e banquetas de couro. Os participantes e os que fizeram a história da França por ali passaram. O passado está representado nos retratos que cobrem as paredes do antigo café, hoje restaurante famoso. Escritores como Anatole France, Balzac, Voltaire, revolucionários como Marat, Danton e Robespierre, poetas como Verlaine. O menu apresenta pratos franceses clássicos.
Encerrando o passeio, retornamos ao hotel e naquela noite fomos jantar num restaurante curdo nas proximidades do hotel com bom vinho, é claro.




Dia 21 de outubro de l994: 5o. dia em Paris:




Após o café, consultando indicações turísticas, umas que havia no hotel, outras levadas na viagem, saindo pela rue des Petites Écuries, com destino a rue Richer, percorremos as ruas de Faubourg Montmartre, Notre Dame de Lorette e Fontaine. Estas ruas nos levaram a uma subida, o que cansava um pouco a caminhada. Pelo caminho, uma infinidade de cafés e brasseries com seus preços expostos. Chegamos a Place Blanche e, em frente ao café Palmier, aguardamos o trenzinho colorido (Promotrain) que nos levaria à Place du Tertre, ponto de encontro de pintores, artistas e exposições de trabalhos artísticos. O local fugia a tudo o que se tinha visto. Era de um colorido vivo, como se tudo não passasse de um imenso quadro impressionista. Cafés e restaurantes com suas cadeiras ao ar livre. As casas, muitas, tinham toldos coloridos e títulos desenhados. As gravuras, reproduções de pinturas, eram vendidas a preços módicos. E todo mundo comprava.
A condutora do trem ia mostrando as ruas mais conhecidas e as casas onde moraram pintores. Havia peculiaridades pelo trajeto, como Cabaret des Assassins, hoje conhecido como Le Lapin agile.Na volta, depois do passeio a pé pelos arredores da praça, o trenzinho nos deixou, novamente na Place Blanche. Tomamos o metrô na estação Villiers e saltamos na estação Opera
Fizemos, mais uma vez, o caminho de casa pelo boulevard Capucines, Italiens, rua Chauchat, Provence, Richer e Petites Écuries. Visitamos muitas lojas e oficinas em busca de agasalho. Lembro-me de uma peleteria, onde entramos e ficamos observando a quantidade de casacos de pele verdadeira . Parecia até que estávamos acariciando um animal de pele sedosa. O preço ? Era o preço de uma temporada em um hotel, é claro. Uma roupa dessa tão cara, exige uma vivência freqüente nos acontecimentos sociais. Isso sem falar na crítica ferrenha dos defensores do ambiente e da fauna. Não deu, realmente, para comprar apesar da boa vontade do proprietário. Só lhe demos trabalho de mostrar, exibir novos conjuntos e apelar para nosso bom gosto. Nessa noite, não muito tarde, jantamos no Marmara, em frente ao hotel. De nosso quarto, pela janela, a gente acompanhava sua atividade até bem tarde.




Dia 22 de outubro de l994: 6o. dia em Paris:




Nosso interesse, nesse dia, prendeu-se à história da revolução francesa, visitando a Conciergerie, na Cité, logo pela manhã, com direito a um guia que acompanharia os visitantes pelas salas e demais compartimentos.
Os compêndios de História descrevem-na como sendo a parte medieval do Palácio de Justiça em Paris, delimitada pela torre de l’Horloge, torre de César, torre d’Argent(elevada sobre as fundações romanas), a torre Bon-Bec ( onde ficam as câmaras de tortura) . Esta parte do palácio correspondia no passado à administração do “concierge”, alta personalidade que administrava a casa real, ficando a seu cargo, na administração e na manutenção da justiça, o controle das pessoas que trabalhavam naquela parte. Em l392 foi convertida em prisão. Depois que o palácio da Cité deixou de ser a residência do soberano, a Conciergerie se transformou em local de massacre. A revolução francesa teve como prisioneiros: Maria Antonieta, Carlota Corday, Mme. du Barry, Robespierre, André Chénier . Posteriormente passou a funcionar como uma prisão preventiva, onde os acusados, submetidos a julgamento perante os juízes de instrução, passavam por suas escadas e corredores.
Assim, enquanto aguardávamos o início da visita, de posse do folheto recebido na entrada, ficamos ciente do que se veria, fundamentalmente: sala dos Gens d’armes, sala dos Gardes, a cozinha no nível térreo ( as outras foram extintas) , a sala da toilette (ali os prisioneiros deixavam seus pertences), a galeria dos prisioneiros, a capela dos Girondins , o minúsculo “cachot”da rainha Maria Antonieta.
Entramos no pátio e nos detivemos numa sala de espera até que o guia apareceu. Primeiramente o seguimos pelos corredores. Chegamos a uma espécie de salão, guarnecido de muitas colunas, tendo nas paredes dizeres representativos da época, vestígio de antigo palácio “capétien”, e destinado à guarda real, aos defensores do rei. (Reconstituído por Philippe IV le Bel - l285-1314) Era tudo o que restava de um palácio real medieval. Passamos ao refeitório e à cozinha, construída no reino de Jean le Bon (l350-1364), “voûté” de ogivas, comportando quatro chaminés de ângulos dispostos de acordo com a visão da Idade Média. Como beleza gótica, há referência sobre a sala des Gens d’armes, que forma um conjunto que é um dos mais artísticos da época. Apesar de toda essa grandiosidade que ainda ostenta, a Conciergerie se apresenta como uma verdadeira fortaleza não só pela segurança da construção como pelo cinzento que a pouca iluminação deixa entrever. Suas paredes são possantes, dando a impressão de estarem sempre úmidas. O prédio começa na própria rua, como tantos outros de Paris.
As celas frias , ínfimas e o pátio onde os prisioneiros viveram seus últimos dias , até serem mortos na guilhotina, são agora representações daquela época, com camas expostas, armários e pequenos utensílios domésticos de que se serviam os prisioneiros. Nada mais se registra que mereça realce. Antes da revolução, é claro, tudo aquilo tinha outra finalidade. Aqueles cômodos deveriam ser destinados a pessoas que trabalhavam no castelo.
O prospecto que recebemos na chegada, continha também uma pequena planta de localização, o que muito nos orientou, servindo-nos de lição, pois nem tudo se conseguia ouvir e entender do guia.
A cela, em que passou os últimos dias de sua vida, a rainha Maria Antonieta, merece mais comentários. Ainda existe um quarto sem janela, uma cama simples e, reconstituindo os dias do terror, há uma boneca, de tamanho natural, simplesmente vestida, como se fosse a prisioneira. O ambiente revela tristeza na sua falta de claridade e de ar corrente, um ambiente desolador e sufocante.
A nossa visita foi num dia chuvoso. Já que não se podia andar pelos jardins, pelas ruas e presenciar a vida ao ar livre, pelo incômodo da chuva, destinamos esse dia aos museus. Entretanto, dizem os visitantes que mesmo em dias quentes , de sol forte, um vento frio costuma soprar nas torres do palácio, tornando-o pesado, como se carregasse em suas cinzentas paredes o murmúrio dos encarcerados antes de serem conduzidos à guilhotina pelas carroças de esterco. Será que não ficariam, portanto, alojados esses animais na região em que é hoje conhecida como rue des Petites Écuries ?
Encerrando nossa visita a tão majestoso palácio, embora desolador pela história que guarda, passamos, de novo, à vida e a beleza de Paris. E chegamos ao Louvre. Não se precisa dizer que estávamos diante do mais famoso museu da França e um dos maiores do mundo, talvez o maior, sem dúvida alguma. No hall Napoléon recebemos farta publicidade com um guia (disponível em 6 línguas), indicando que o museu está dividido em 3 regiões: Sully (cour Carrée); Denon, côté Seine; Richelieu, côté rue du Rivoli. Para os sócios do Clube de Paris o acesso se fazia pelo portão Richelieu, sem precisar se submeter a uma ffila gigantesca em direção às escadarias da pirâmide de vidro, moderníssima, cuja construção causou polêmica por contrariar o estilo original do conjunto.
Não se encontram palavras para descrever com exatidão o que significa andar pelos corredores do Louvre. Todo mundo já ouviu falar do Louvre. Todo mundo já leu sobre o Louvre ou viu fotografia do monumental edifício. Sabe-se igualmente que lá se encontram as verdadeiras obras primas da humanidade: Vênus de Milo, a Vitória da Samotrácia, o retrato da Mona Lisa além das 4OO mil obras de acervo, todas muito bem dispostas arquitetonicamente com farta iluminação e preservadas para que não percam o viço em suas telas ou em outros elementos de que são constituídas. O Louvre, construído no século XVI para servir de residência real, só em l793 utilizará uma parte como museu. Apesar de se percorrer longos corredores, ver infinitos quadros, dificilmente se sai do Museu achando que viu tudo, que não precisa mais perder seu tempo com “museus”. Muita coisa, ou quase tudo, ainda não foi visto. Quem principia pelo Richelieu vai ver um tipo, uma época em 4 níveis, como são assinalados no guia: entresol, rez-de-chaussée, 1er. étage e 2er. étage. Do mesmo modo se pode dizer dos outros corredores ( Sully e Denon ). O que se vê ? Depende do gosto e do interesse de cada um. O que não se pode é perder tempo com indecisão, deixar ao acaso. Muito bem selecionados, encontram-se os acervos correspondentes à Antiguidade (oriental, egípcia, grega, etrusca, romana), aos Objetos de arte até o século XIX, Esculturas até o século XIX, e as Pinturas, igualmente, até o século XIX, Louvre Medieval-História do Louvre. Essa divisão compõem os 4 níveis do museu nas mesmas direções.
Há coleções permanentes, as obras que fazem parte integrante do acervo do museu e há exposições temporárias, bem como visitas-conferências e atividades nos ateliês. O auditório compreende 42O lugares. Fora do museu propriamente dito, há livrarias, butiques e salas de projeção de filmes sobre o Louvre. Os restaurantes e os cafés são muito freqüentados: Le Grand Louvre, Le Café du Louvre, Le Café Napoléon, Le Caffé Mollien, Le Café Richelieu, Le Café Marly.
A visita, finalmente, chega ao fim. Mas que dia proveitoso e inesquecível! Em horas, apenas, a gente vê desfilarr a nossa frente, à escolha nossa, a história cultural da humanidade , fazendo-nos sentir orgulho de fazer parte desta cadeia evolutiva que nos trouxe até aqui como um rolo que vai sendo desenrolado, aos poucos, para que se possa ver, como num filme, a nossa vida, a vida da nossa espécie.
Saindo dali , sem se preocupar com a refeição, pois o cansaço era visível, retornamos, via metrô, ao nosso hotel Aulivia, bem no coração de Paris, como ele diz no seu cartão de propaganda, encerrando nosso 6o. dia em Paris.



23 de outubro de l994: 7o. dia em Paris:




Saindo, pela manhã, logo após o café no hotel, fizemos o mesmo itinerário do primeiro dia até o Centre Pompidou ou Beaubourg, centro de arte, inaugurado em l977. Após a visita, pretendíamos almoçar no restaurante Goldenberg, especializado em comida israelita, localizado no mesmo quartier do museu, compreendendo Halles e Marais. Aos domingos, a entrada no Centro de Arte é grátis. Não é como o Louvre. É uma estrutura essencialmente moderna e que, à primeira vista, se choca com toda aquela suntuosidade que a arquitetura tradicional de Paris ostenta, embora repleta de lances e pormenores de leveza, de alegria e de suavidade,
Paris guardou e bem tudo o que era antigo, com o cuidado de restaurar o que fosse atingido pelo tempo, mas foi capaz de absorver e combinar as mudanças da evolução arquitetônica, sem imaginar sequer comprometer o tradicional que se manteve intacto em suas linhas originais. Além do mais, Paris é uma cidade iluminada e está a todo instante propiciando aos visitantes, com todo seu esplendor, vida luxuosa, vida artística e vida romântica. É uma velha-jovem, que está disposta a permanecer desse modo por todos os séculos que hão de vir. Como velha, não se deixa desmoronar, guardando-se, a cada instante que passa, certa de que assim protege as bases das estruturas de sua formação histórica ; como jovem não se deixa arrastar pelas novidades, permitindo-se, numa atitude desconfiada , quanto à valoração absoluta do novo que se insinua, só receber os elementos que, não estando envolvidos por visível transitoriedade, apresentem equilíbrio e serenidade, características necessárias para vencer as exigências do tempo, ao encaixar-se ao que existe.
É, desse modo, pois, que se estabeleceu a modernidade em Paris, aceita por uns e criticada por outros. Georges Pompidou instalou em Paris um Centro Cultural para expor a arte do século XX em todas as suas manifestações. O edifício, com sua radical arquitetura, é considerado o mais avançado do mundo. Ele é constituído por canos e dutos, numa profusão de vidros e de cores, sem que estejam presos a um tipo de estrutura tradicional, com andares normalmente superpostos, dando a noção de espaço livre. As escadas rolantes são cobertas por tubos. Não há paredes e sim divisórias.
Penetrando no quarto andar, vamos encontrar o Musée National d’Art Moderne e sua coleção de arte do século XX. Encantam-nos as obras fauves, expressionistas e abstracionistas, que podem ser admiradas em todos os pormenores, nos mínimos detalhes em razão de farta iluminação do ambiente moderno. Desfilamos diante de Kandinsky, Bonnard, Utrillo, Chagal, Dufy, Léger, Polloc e outros. Podem ainda serem vistas , além de esculturas modernas, vitrôs e desenhos. Pode-se consultar a biblioteca com mais de um milhão de livros. Os apreciadores de cinema encontrarão na cinemateca farto material sobre execução de filmes.
A praça ao redor do Centro é muito animada. Há exibições volantes, barracas de souvenires, cantores ambulantes e cachorros, sempre os cachorros. E é esta a maior demonstração de cidade viva, com tudo para dar aos que apreciam a cultura em todas as suas manifestações.
Chegamos ao Marais com suas mansões, que, no passado aristocrático, foram residências nobres. Hoje, muitas estão sendo remodeladas e restauradas. É ainda uma região fascinante e deve ser percorrida com bastante tempo, pois tem muita coisa para ser vista. A rue des Rosiers representa a área judaica.. Encontram-se muitas igrejas, onde se nota a Notre Dame des Blancs, o Museu Carnavalet e Museu Picasso, entre outros, o Memorial do Martir- Judeu desconhecido, a Colonne Juillet.
No Marais, finalmente, fomos ao restaurante Goldenberg. O restaurante estava repleto. Tivemos sorte ainda em ser atendidos já que nem fizemos reserva. Esperamos um bom tempo até que vagou uma mesa para dois, uma pequena mesa. Aí ficou tudo mais fácil. Fomos atendidos prontamente. Primeiro prato, o principal e a sobremesa. Uma refeição excelente, fina e típica. Gostaria de haver repetido, em outro dia, não só o primeiro prato como o segundo. O restaurante aprovou. Isso sem falar no pitoresco do ambiente requintado, representativo da comunidade judaica, com quadros, molduras, fotografias de personalidades importantes que freqüentaram o restaurante, como Mitterrand, por exemplo.
Chegamos por acaso, à Place de Vosges. Os guias dizem que é a mais antiga de Paris, também conhecida no passado como Place Royale. Data de l6O5.
Sentamo-nos num dos poucos bancos vazios, pois a praça estava repleta de crianças acompanhadas pelos pais. Um grande número de turistas, com suas máquinas fotográficas e suas filmadoras, andavam de um lado para outro tentando captar o que mais lhes interessava.
A graciosa e amena Vosges, em pleno coração do Marais (arrondissement que mereceu a atenção de André Malraux, quando Ministro da Cultura, restaurando-o a fim de que voltasse a ocupar os dias de pompa do passado) é o maior e melhor exemplo de perfeita simetria arquitetônica e paisagística, obedecendo a um formato quadrado, onde, em seu centro, se eleva a estátua de Louis XIII.
É difícil encontrar lugar mais poético, não só pela profusão do verde das árvores, como pela mistura harmoniosa de tijolos cor de castanha e pedras das moradias. Rodeando os três lados da praça, encontram-se prédios geminados, de dois andares e sótãos, formando um conjunto arquitetônico idêntico. Os altos e contornados telhados, que cobrem as casas, são recobertos de ardósia. A parte térrea é composta de uma galeria contínua, com portas grandes, sustentadas por lajes antigas, que, por sua vez, são revestidas por enormes arcos. A divisão em blocos distintos é vista somente do telhado de ardósia, no sótão de cada um bloco, onde são dispostas, além de uma chaminé, quatro janelinhas aparentes, de cor clara . Um verdadeiro cartão postal.
O que significa Vosges ? Sabe-se que esse nome foi dado à praça em homenagem ao departamento de Vosges, maciço montanhoso que compreende as diversas regiões da Lorena .
É inacreditável que neste paraíso bucólico, num passado distante, é claro, já se bateram em duelo muitos nobres, constituindo-se, então, em local de tristeza e infortúnio.
Nesta praça, onde viveram Richelieu, Madame de Sévigné, Théophile Gautier (casa 8), que afirmava ser Paris a soma de toda França, do Nord, du Midi, de l’Ouest e de l’Est, pois “les vrais Parisiens autochtones sont bien moins nombreux qu’on le pense” , também viveu Victor Hugo, em cuja casa, hoje transformada em museu, escreveu parte de sua obra e ,em cujas janelas , que dão para o parque, deveria ter observado, em busca de inspiração, talvez, o verde das árvores que, agora , em pleno outono, mudando sua cor para alaranjado, soltam suas folhas que rolam pelo chão, formando um exuberante tapete, um verdadeiro presente para os olhos. E, assim, ficam recebendo o impacto dos sapatos dos turistas que, muitas vezes, apressados, como que embriagados pela beleza das construções à sua volta, nem lhes notam a suavidade sob os pés. Até o vento parece respeitá-las, deixando-as inertes e silenciosas como se fossem não só arranjos poéticos mas também cobertura imprescindível para o sustento da terra que já vislumbra um rigoroso inverno.
Saindo da graciosa pracinha, percorremos a rua Mula do Papa, o que me lembrou um conto de Alphonse Daudet, e chegamos à Place de la Bastille, ocupada no passado pela Bastille de Saint-Antoine,de 1371 a 1383, situada entre a rua Saint Antoine e o boulevard Henri IV. A história da Bastille, prisão odiosa, termina em 14 de julho de 1789, quando foi destruída pelo povo, no começo da Revolução Francesa. A praça é decorada por uma coluna, a de Juillet , construída e erigida de 1831 a 1840, em atenção às vítimas da Revolução de Julho de 1830. A coluna, com 50 metros de altura, se sustenta numa parte maciça em mármore branco, de forma circular, e é enfeitada por 24 medalhões, em bronze, representando a Justiça, a Constituição, a Força e a Liberdade, suportando o pedestal em mármore da coluna. Decora o pedestal, em baixo-relevo, um leão em bronze
Choveu bastante e limitamos, pois, nossos passos. Nada de sair buscando novas artes, como faziam os intrépidos conquistadores de outras épocas. Conquistadores de um novo mundo que somos, limitamo-nos a tomar simplesmente o metrô Chemin Vert para saltar nas imediações do Arco do Triunfo, ponto final dos Champs-Élysées, metrô Étoile. Pretendíamos vê-lo brilhando, visível à distância sem ter de gastar um passeio de ônibus para as conhecidas iluminações noturnas oferecidas nos hotéis por agências especializadas. Acho que não tivemos sorte, porque a iluminação não foi suficientemente intensa. Não teve aquele clarão dourado. Finalmente, lá pelas dez horas, voltamos ao hotel. A Tv. apresentava o filme do A. Hopkins sobre o Canibal. Já o assistira na Tv brasileira. Deu apenas para conferir um pouco. E a noite desceu sobre nós.



Dia 24 de outubro de 1994: Oitavo dia em Paris.


O dia não foi muito significativo quanto à arte e à arquitetura loca. Também não fomos a nenhum museu. Destinamos esse dia para compras. Não para compras supérfluas, desnecessárias, mas sim para adquirir o que realmente precisávamos: agasalhos. A essa altura o frio, que veio com a